(por Ute Mader para a Revista Matices, Alemanha, 2011)
Voce trabalhou o filme com uma equipe pequena e muitas vezes usando camera nao mao. É um conceito de trabalho estetico pra voce?
O uso de camera na mao permitiu criar uma espontaneidade ja que SOL NA NEBLINA é um filme com poucos dialogos onde a historia é narrada com elementos totalmente visuais. As cores, os sons, as paisagens sao elementos importantes que usamos para construir a narrativa do filme. Neste sentido nao seguimos por uma caminho classico de construcao de roteiro. SOL NA NEBLINA é tambem muito influenciado pela narrativa economica da obra do escritor Albert Camus.
SOL NA NEBLINA foi filmado depois de O CORO. Para fazermos O CORO tinhamos uma equipe relativamente grande e muito mais recursos financeiros. Depois que terminamos as filmagens queria fazer SOL NA NEBLINA com o minimo de gente possivel sem equipamento pesados tais como gruas e travellings. Apenas um pequeno grupo que se revezava em varias atividades. Por exemplo: a mesma pessoa que fazia a producao era responsavel tambem pelo figurino e pelo make up. Eramos como uma familia vivendo no mesmo hotel, filmando na praia. Foi uma experiencia muito boa, sem compromissos.
Existe o paraiso que Pedro esta buscando? A protecao que ele busca no quiosque funcionaria na realidade social da violencia?
O personagem de Pedro (interpretado pelo ator Santos Chagas) leva uma vida mediocre e tediosa e depois de sofrer um sequestro – o que é muito comum nas cidades latino-americanas – ele decide ir em busca de um paraiso, e decide morar numa cidade pequena do litoral, mas até mesmo onde existe “mar e céu azul” a violencia e a miséria o perseguem. Neste sentido usamos o quiosque como uma fragil simbolo da sua protecao como se fosse uma casca de ovo. Percebemos que a violencia nao é so fruto de uma realidade social mas sim parte da natureza humana.
Voce se inspirou em quais cineastas. O que voce gosta no cinema mundial?
Toda a trilogia é uma homenagem ao cinema e sua historia. Eu faco parte de uma geracao que cresceu vendo filmes na Cinemateca de Curitiba (capital do estado Parana, Brasil). Lá podiamos ver os grandes classicos e aprender com eles. Gostava muito de Antonioni, Robert Bresson, Bunuel, David Lean, Pasolini, Carlos Saura, Jaques Tati, Bergman, Leon Hirzmann, Glauber Rocha e todo o Cinema Novo brasileiro. Certamente a trilogia é uma homenagem aos diretores e aos filmes que eu gostava de assistir na Cinemateca. SOL NA NEBLINA tem um pouco de influencia de cada um destes diretores.
Voce falou de uma trilogia. Sol na Neblina é a primeira parte? Voce poderia comentar um pouco o conceito?
Na verdade toda a trilogia tem por objetivo uma pesquisa de linguagem cinematografica no sentido de pensar o que foi o cinema no passado e qual sera o cinema do futuro. Neste sentido é um trabalho sem compromisso com o mercado e mais uma reflexao pessoal sobre o proprio cinema.
SOL NA NEBLINA juntamente com O CORO e A DIMENSAO faz parte desta reflexao, ainda que os filmes sigam uma linha mais existencial do que social. Ja me falaram que estes filmes nao se parecem com “filmes Brasileiros”, mas na verdade as pessoas esquecem de que o Brasil é muito grande e eu cresci no sul, vindo de familias alema e italiana, onde é muito mais parecido com a Europa do que com aquela imagem de paraiso tropical cercado de favelas e violencia. O CORO, por exemplo, é um retrato fiel da sociedade Curitibana onde mostramos um grupo de pessoas ensaiando para uma apresentacao da 9ª. Sinfonia de Beethoven. E aqui na Europa me perguntam: Brasileiros tem crise existencial? E o Samba? Onde esta o samba? Para nós do sul do Brasil aquela imagem da mulata brasileira dancando no carnaval do Rio é tao exotica quanto para um turista europeu.
(por Ute Mader)


